quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ouro Preto (fail) again

Puta que pariu!
Como eu poderia imaginar que três caras conseguiriam chegar facilmente em Ouro Preto!
OBVIO QUE NÃO!!
Totalmente fail!

A viagem mais cansativa de carona do século!
Chegamos sim, mas sofremos!
A gente sofre mas se diverte, porém... creio.

Ah mas estamos em Ouro Preto... agora só alegria.
Dois dias para chegar aqui...
Pô vai parecer que eu escrevo essas coisas para desmotivar as pessoas a viajarem de carona. Não! É super sustentável e você ainda faz amigos.

Mas lembre-se que sempre se conta com um tanto de sorte. Um conjunto de fatores, obviamente, auxiliam numa maior sorte. Um deles, não é viajar a três.
Resumindo um pouco a pequena saga: JUIZ DE FORA - OURO PRETO

1o dia - JF - BARBACENA


Primeiro, acordamos muito tarde. Chegamos no ponto de carona umas 3 e meia da tarde, no posto Graal, depois do bairro Barreira do Triunfo. É muito longe, então demoramos um tanto no ônibus. Teríamos que sair dali num carro direto para Ouro Preto, antes que escuressesse ao menos.

Uma hora depois, de muito revezamente no dedão (de vez em quando um da gente ia se esconder... essa tática funciona) decidimos os três tentarmos ao mesmo tempo, porém em pontos diferentes da estrada.

Fucionou! Um carro parou, perguntei se poderia levar mais três. O cara disse que sim, só que não teria lugar para as malas. Enlatados, seguimos.

Chegamos e já estava quase escurecendo. Foda, três caras, de noite! Nunca parariam. Mas esse pensamento tinha que ser eliminado. No fundo acredito na Lei da Atração, é uma baboseira gigantesca... mas tenho que acreditar nessas situações para não me desmotivar!

Não sabíamos direito onde pegar carona, ficamos no Nosso Pão de Queijo, mas nada. Nem caminhoneiros nem nada. Três caras! De noite!

Eu nunca pararia! Aí outro ponto importante a se pensar, que utilizo quando pego caronas. O pensamento simples e lógico: "Eu pararia o carro para mim?".
Por muitas vezes a resposta é Não. Mas tento não parecer na maior parte das vezes que sou um marginal ou assaltante. Sorria sempre, e faça a barba.

Custamos a compreender que estávamos fodidos.
Num ponto longe do centro, sem dinheiro e eu com um celular novo, sem meus contatos (havia perdido após uma festa na qual fui de Gandhi).

Fail. Totally fail. A hundred times fail.



Insístiamos em vários pontos da rodovia. E a hora ia passando.
Havia algumas putas por perto, e algumas vezes quando um caminhão parava, iludia-me que era para nós. As putas tinham uma grande vantagem.

Tínhamos duas opções.
Pegar um ônibus até Lafaiete, e de lá pra Ouro Preto.
Dormir por lá, e sair no dia seguinte bem cedo.

Abandonamos a idéia de caronar definitivamente.
E eu que queria incutir a sustentável idéia de viajar de carona no Alex e no Xabi, fui bastante eficiente no oposto! Acho que nunca mais iriam caronar pra qualquer lugar que seja.

Mas, sempre digo, caronar é incerto!

Fomos para a rodoviária, que ficava ali pertinho.
E para a minha pergunta de quando sairia o próximo ônibus para Ouro Preto ou Lafaiete, a resposta: "meu querido, só amanhã."

Ótimo.

A primeira e mais segura e confortável opção já estava completamente descartada.
Teríamos que trabalhar, agora, a segunda para que ela se tornasse também uma opção confortável, e acima de tudo segura.

Eu havia perdido meu celular algumas semanas atrás (fui de Gandhi numa festa, sem bolsos... e me alcoolizei... tsc tsc) e o meu novo não tinha quase nenhum contato. E como não havia contado com o imprevisto (sempre conte com imprevistos!) não peguei o número de ninguém que morasse em cidades pelo caminho até Ouro Preto.

Solução temporária encontrada: Beber.
Teríamos muito tempo pra isso.

E enquanto isso, no Nosso Pão de Queijo esperaríamos alguém para abordar pessoalmente e perguntar se nos levaria.



Ninguém.

Dormir na rodoviária não é algo agradável. Definitivamente, mas é algo que pode ocorrer quando nos propomos a essa forma de viajar.
A a maldita rodoviária de Barbacena então é o lugar que mais faz frio em Barbacena!

E porque - maldição - não fazem bancos inteiriços! Os bancos eram aqueles de sala de espera, cadeiras independentes unidas por uma barra de ferro, cumprem efetivamente a sua real e única função que é servir de assento, mas para dormir é algo BEM desagradável.

Frio dos infernos. Meio bêbado com uma pinga terrível. E deitados em bancos de consultório.

Todos os meus casacos, duas calças e leves doses de Tangirú, me mantinha aquecido.

Alex, precavido, tinha uma manta metálica para emergências, e se enrolou naquele papel alumínio gigante.

Xabi se enrolou numa toalha de banho. E usava meu gorrinho peruano.

Chamávamos atenção.

Bêbados se aproximavam, um deles nos presenteou com balinhas. Ofereci um gole de Tangirú, mas ele disse que estava parando de beber, muito embora entregue pelo seu imenso odor de álcool proveniente da transpiração. Não devia gostar da Tangirú. NINGÚEM DEVE BEBER TANGIRÚ!

E nesse cenário, dormimos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Gastronomie

Depois da grande e divertida loucura que foi caronar pelo Nordeste, afastei-me de viagens crazy, e invariavelmente do blog pelo motivo do retorno às aulas. Estudei como um cão.

Claro, um blog de viagem não se faz, necessariamente, ao se estar em trânsito. Mas estava ralando na facul, e sem tempo pra qualquer coisa não-jurídica.

Retornei com esse post, porque semana que vem agora sigo para Ouro Preto. Com dois franceses que estou hospedando aqui em casa, dois gastronomistas que vieram estudar a exquisite culionarie brasiliéne e vão viajar pelo Brasil.

Alex e Xabi, duas pessoas fantásticas.


]

Vieram pra cá pra conhecer a culinária mineira, daqui vão pra Ouro Preto e depois Belo Horizonte, e depois seguirão para o Nordeste. Já cansei do comodismo do período letivo e como uma visita a Ouro Preto, nunca faz mal a ninguém... irei também. De carona, lógico.

Mas já que os dois são gastrônomos, falemos de comida, no momento.

Eu sou chegado a cozinhar. A questão é que ninguém é chegado no que eu cozinho. O que me torna um apreciador (?) solitário das minhas incursões gastronômicas. As vezes compro livrinhos em bancas, esses de culinárias de países e arrisco alguma coisa mais ousada do que sopa de ervilha ou caldinho de inhame.

Recebi os dois com um duvidoso autêntico cuzcuz nordestino! Que comi horrores em Natal, e adorei.
No meu mundo doentio, constatei que apenas por comer, absorveria as habilidades do preparo, excluindo inclusive a necessidade de uso da cuzcuzeira. Obviamente,não saiu nada agradável, e nos dispusemos a comer apenas quando estávamos muito bêbados.

Eu e minha culinária atípica.

Para completar a noite, a que não tem perna mas dá rasteira, Pitú, nos fez esquecer (se fez!) do meu fracasso no fogão.

Mas eu ainda podia contornar a situação, e ser
Tendo dois gastrônomos franceses em casa, me senti na obrigação de levar - compulsoriamente - meus guests a uma imersão na minha alimentação do dia-a-dia.

Sempre que conseguíamos levantar antes das 14h, almoços no Restaurante Universitário. Infelizmente fomos surpreendidos em um dos dias pelo infame cozido Húngaro (o que faz eu ter uma péssima imagem da alimentação na Hungria.

E pela noite, uma autêntica gastronomia universitária, ora preparado por mim, ora nos bares mesmo.

Como por exemplo:

O TORRESMO DO BIGODE.

O torresmo do Bigode merecia um tópico a parte pela sua enorme crocância, e paradoxalmente, suculência,  e alto teor de lipídios.
Não sei o que diabos eles fazem com aquele torresmo, alguma reza forte, um ritual específico ao ceifar a vida do suíno, mas a gordurosa e nada saudável iguaria é inacreditavelmente delíciosa.

Mas nem só de torresmo vivemos (por mais que queiramos), e aproveitando esse post gastronomique, listo coisas obrigatórias para comer em Juiz de Fora. Se você não comeu, corra e mergulhe no pecado mais gorduchinho e prazeroso (depois da luxúria).

1. Pizza de queijo do futrica (véi! uma pizza toda de queijo! TODA! até a massa... enfim...)
2. torresmo de tira do Bigode
3. Costela ao bafo no Bar do Passarinho
4. Picanha na pedra do Las Lenhas
5. Pão de mel do Las Lenhas (o melhor do mundo)
6. Bolinho de bacalhau do Bigode
7. Ovos mexidos com bacon da Maxi Pão
8. Vaca atolada no Prócopão
9. Mexidão clássico do Galdino
10. quitutes variados na feira de domingo da Av. Brasil (6 empadinhas por 1 real. 6!!!)

Ó gula!

Que venha Ouro Preto - e as coxinhas de frango do Barroco!

Enquanto isso seguiremos com Baco e uma majestic cuisine.

sábado, 10 de abril de 2010

Coliseu, Kombi e Tierra del Fuego

O que levam pessoas a realizarem grandes viagens?
Viagens que aos olhos da maioria soariam como desconfortáveis, cansativas, absurdas, são na verdade muito prazerosas e verdadeiras comprovações que a melhor escola é a vida, para quem as realiza.

Ao entrar na faculdade, nas muitas vezes que andávamos por aí, bêbados sonhadores, por bares de Juiz de Fora e reuniões diárias no meu apartamento, divágavamos sobre a possibilidade de comprarmos uma Kombi ao término da faculdade, e viajarmos com a nossa possante, a nossa La poderosa pra galerão para a terra dos alfajores e de el Diego, Argentina. Mais especificamente, para o extremo sul da Argentina, la Tierra del Fuego.

A idéia adveio da alcoolizada formação do COLISEU - um coletivo que sinceramente não funciona, e no qual nos empenhamos - somente - em efusivas discussões sobre mulher-futebol-política (necessariamente nessa ordem) e eventualemente alguma coisa sobre direito (que não continua tão lindo mais, quanto nos parecia no primeiro período).

Seria simples a empreitada.

Cogitamos abrir uma conta, na qual todo mês cada um depositaria a sua parcela. Coisa pouca, algo em torno de R$ 50,00.
No final, com o valor pretendido daria pra comprar uma Kombi 84, e mais uns acessórios como churrasqueira, uns bancos, mesa, redes, barracas, um som bacana.
Prosseguindo na idéia da conta, Mamão propôs, que com o dinheiro aplicado, poderíamos ir realizando investimentos - inclusive de risco - pra tentar multiplicar os parcos recursos, e quem sabe, ao fim, a Kombi desse lugar a um confortável micro-ônibus (até uma van escolar tava valendo).

Ninguém tinha a idéia romantizada da viagem de Kombi pela América Latina. A questão era justamente ser um meio para chegar.
Não tinha que ser especificamente uma Kombi, a Kombi surge do fato de não termos um puto qualquer no bolso, e associada a isso, encaixar no quesito grande caixa sobre rodas pra caber muita gente e tralha.

Mas cada vez que íamos - bebâdos e sonhadores - pensando mais na viagem, a idéia romantizada da Kombi, enchia nossa imaginação.
E de uma simples necessidade fática devido as nossas  inexistentes escassas finanças, a Kombi passa a fazer parte da viagem, como uma personagem a mais. A viagem tinha que ser de Kombi. E não qualquer Kombi, mas aquela de duas cores, ícone clássico dos anos 60 e da contracultura.


Separadamente, íamos buscando pela internet relatos de alguém que tivesse realizado tal viagem. E quando nos reuníamos, proponíamos uma coisa ou outra ao roteiro.

Até que... os semestres passaram voaram. E nossa promessa não vingou.

A faculdade está no fim, e nada da nossa sonhada Kombi e da nossa viagem crazy até o extremo sul da Patagônia.


Na medida que vamos crescendo, crescem-se as responsabilidades, mas o que nos impede de realizarmos uma vontade?
O que nos faz persistir dizendo "eu tenho vontade de" e nunca efetivamente realizar, concretizar a vontade em feito.

Só se vive uma vez. E nem adianta pensar que a vida é longa, que dá tempo de fazer muita coisa.
Na verdade não.


As pessoas criam expectativas em torna da gente, e essas expectativas te enredam como visgos.
Te aprisionam, e não te permitem sonhar, nem viajar (no sentido que preferir), nem ser o que se é.



Alguns relatos inspiradores de viagens inspiradoras:

5 amigos terminaram a faculdade e decidiram, fazer uma viagem de bicicleta de Beijing até Paris.
http://www.fueledbyrice.org/route.html

O grande aventureiro brasileiro, o economista, Amyr Klink, realizou a travessia do Atlântico sul num barco a remo. A viagem levou 100 dias.
http://www.amyrklink.com.br/conteudo.php?page=biografia

O desconhecido Rubens Pinheiro que saiu de Salvador numa viagem de 18000km rumo a Nova Iorque.
http://www.ondepedalar.com/mobile/viagens_bike/relatos_viagens_bike/da-bahia-a-nova-iorque-de-bicicleta.html

quarta-feira, 17 de março de 2010

6000km



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6000km percorridos.  35 dias na estrada.

Porque valeu?
A priori, foi um mês que tirei pra mim. Para viajar por viajar. Sem luxos. As vezes com um dinheiro a mais, as vezes sem dinheiro algum. Indo para o onde o vento me levasse, ficando o tempo que cada lugar pedia. Pode ser piegas, mas boa parte de tudo isso foi para refletir mesmo. E assim me conhecer.

Viajei pelo sertão da Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Ceará, conheci a terra do Lulita, Garanhuns (que fica na serra e faz um frio danado) e me perdi de encanto pelo Velho Chico - e entendi o fascínio que gerado por ele - com suas águas verdes e seus cânions ocres.
Experimentei o carnaval de frevo e maracatu no Recife, e da tradição das fantasias e ladeiras de Olinda.

Valeu demais por experimentar a tapioca de carne de sol em João Pessoa, por nadar com golfinhos e pela falésias intermináveis de Pipa, caminhar por Ponta Negra e subir as dunas de Genipabu em Natal, me matar com Pitú em Mossoró, pelo samba, chorinho e caranguejos de Fortaleza e o universo paralelo - e aquela vontade de ficar pra sempre - proporcionada por  Jericoacoara.

Jericoacoara





Ainda não me inspirei para escrever sobre a minha experiência em Jericoacoara, mas deixo as impressões do Marcos, el loco de Barcelona... um grande amigo que fiz nessa viagem.
Pienso en las razones que uno puede tener para visitar un lugar como Jericoacara:
un lugar ideal para practicar kite surf, o para hacer sunboard, o un lugar para simplemente "desconectar" del mundo?
Creo que todos los motivos son validos cuandos se trata de Jeri.
Pero la aventura de Jericoacoara comienza antes, antes de llegar.
Partimos desde Fortaleza por la manana y despues de casi 5 horas llegamos al pueblo de Jijoca, alli nos esperaria una "jardinera" (un jeep bus) que nos trasladaria a Jericoacoara.
Allì es donde comienza la aventura, el recorrido comienza con un tramo de trocha de color marron arcilla para luego entrar en pleno desierto de la Reserva nacional de Jericoacara, un caminito de arena blanca nos va dando una buena premonicion, el acceso esta restringido solo para boogies y 4 x 4 autorizados por la region y no hay transporte publico para ir desde Jijoca a Jericoacara, solo unas 4 x 4 que por 10 reales te llevan a Jeri.
Derrepente se revelan unas grandiosas dunas de arena blanca, derrepente un oasis, derrepente unas lagunas verdes,derrepente vacas y toros en pleno desierto, y derrepente estamos todos alucinados...silencio total...superamos las espectativas.
Llegamos al pueblo y nos comentan que no hay electricidad que alumbre las calles, esta prohibida, no hay correo, solo la luz de las casas alumbra indirectamente las pocas calles de Jeri, y las calles son de arena blanca, asi como lo oyen, aqui no hay pavimento, y la arena es la misma que encuentras alrededor de las dunas o en la playa, por lo cual solo se puede caminar descalzo o en sandalias, y al hacerlo tus pies se hunden en la arena.
Todo es muy tranquilo, no hay mansiones, ni centros comerciales, ni grandes clubes o discotecas.
La plaza principal es un campo de arena pesada en donde un pequeno estrado con un par de parlantes nos revela un evento, se esta homenajeando al gran poeta Cearense "Patativa", si, aquel de la literatura de cordel, al poeta de la calle, unas sillas de plastico alrededor y eso es todo.
Jeri es Sencilla, sin pretenciones, con gente que viene a desconectar, con gente que viene por unos dias y termina quedandose una vida como Irene la Capoerista Argentina, o Marcello el Pizzero Italiano, o aquellos que llegaron luego y fueron creando una de las 140 posadas de Jeri.
La playa principal es espectacular, el atardecer en la dunas es magico y el cielo!... bueno... el cielo y sus constelaciones es quizas lo mas espectacular.
Hay mucho por hacer en Jeri, recorrer las diversas lagunas, pasear a caballo, caminar, hacer deporte etc..pero lo que es prioritario en Jeri, es simplemente elevar los sentidos y percibir lo que este lugar desconectado del mundo tiene para ofrecer, aquella energia especial, cuando eso sucede, hay un riesgo, que te quieras quedar, muchos lo hicieron y muchos lo haran, yo al menos, desde el primer dìa, decidì que en un lugar como Jeri, solo una senal me dirìa "es tiempo de partir", ... creo que hay pocos lugares en el mundo como Jericoacara, y hasta ahora confirmo que es lo mejorcito que he visto en Brasil,...y asì, los dias fueron pasando, la senal llegò; dejo Jeri y me despido del companero Ronan que pega la vuelta para Minas.
Hoy escribo desde Sao Luis de Maranhao, desde otro Brasil, pero esa, esa es otra historia!.
Local Ceara - Brasil

segunda-feira, 8 de março de 2010

10 dicas para pegar carona

Caro leitor, você alguma vez já pegou carona? Você já imaginou contornar todo o litoral brasileiro apenas no dedão? Você acha que isso é papo de homem ou papo de maluco?

tripping
Onde nós estamos, Fred
Pois saiba que o gesto clássico com o polegar no ar foi um símbolo do Brasil dos anos 60, quando ainda havia poucas estradas e automóveis em nosso território. Infelizmente, sem o mesmo romantismo de antes, a carona hoje sofre com o preconceito, taxada por muita gente como uma prática quase restrita a hippies mal cheirosos, policiais fardados, andarilhos e prostitutas.
Provando ser possível resgatar o uso e a importância desse transporte alternativo, surgiu em 2006 a Expedição Carona Interativa, projeto que já contornou todo o litoral brasileiro somente na carona e agora pretende mostrar a viabilidade dessa prática em outros países da América do Sul.
Durante as etapas nacionais, que duraram cerca de cinco meses entre Curitiba e São Luis do Maranhão, foram registrados centenas de relatos e fotografias no blog da expedição, divulgando informações de lugares paradisíacos e desconhecidos, além de incontáveis histórias de curtição que deixaria até o Dr. Love com inveja!
Para ajudar os leitores que ainda não descobriram a incrível sensação de viajar dessa forma, a Expedição coloca aqui algumas dicas básicas de como pegar carona com tranqüilidade e curtir o lado bom da vida!
Antes de tudo, o aspirante a caroneiro deve ter consciência do seguinte lema: “nunca dar trabalho ao motorista”. Deve-se facilitar ao máximo a vida do condutor, para que ele possa identificar o caroneiro, parar com segurança e forncer carona sem nenhuma dificuldade.

1) Viaje sozinho ou em casal

Carona não é fácil, imagine então viajar junto com mais de duas pessoas e achar espaço para embarcar todo mundo. Sozinho você consegue encarar as caronas mais impossíveis, em lugares que às vezes mal cabe sua mochila.
carona
O ângulo certo do dedão faz toda a diferença
Viajando em casal, a mulher desponta uma atenção maior do motorista, fazendo muita gente encostar para ajudar. Já dois homens, por exemplo, inibem o condutor solitário, que mesmo disposto a dar carona, não vai parar por falta de segurança, pois no pensamento dele caso aconteça algo são 2 contra 1.

2) Se posicione no lugar certo

Na beira do acostamento o motorista precisa ver você. Para que isso ocorra com maior tranqüilidade, o trânsito tem que estar lento, devagar. Poucos têm a boa vontade de socorrer um viajante quando o carro está voando a 120 km/h.
Deve-se procurar um ponto de redução de velocidade, após cruzamentos viários, entroncamentos, trevos, lombadas ou postos da polícia rodoviária. Se nada disso estiver por perto, fique num trecho reto da estrada, sem subidas, descidas ou curvas perigosas. Certifique-se que o acostamento é seguro, longe de buracos ou desníveis para o motorista parar com facilidade.

3) Fuja da área urbana

Locais urbanos circulam muita gente, dando uma sensação de insegurança para o motorista amigo da carona.
Sem falar das saídas de muitas cidades, com periferias perigosas para qualquer cidadão. Nos grandes centros a melhor coisa a fazer é pegar um ônibus para uma cidadezinha próxima, onde possa descolar carona sem medo.

4) Carona com mochila nas costas

Mesmo estando cansado de carregar aquela mochilona pesada, na hora de tentar carona é bom fazer um sacrifício mantendo ela nas costas, pelo menos na primeira meia hora de espera.
carona2
- Eu sei desenhar. Dá carona?
O condutor que passar por você, acaba deduzindo que se trata de um viajante e não de um malaco qualquer querendo aprontar alguma. O tamanho da mochila também faz comover o motorista, pois muitos encostam para perguntar se está perdido ou precisando de ajuda.

5) Diga seu destino

Leve um caderno de desenho para escrever os destinos almejados, como se carregasse uma plaquinha indicativa. As caronas passam a ser mais precisas, sem a necessidade do caroneiro fazer muitas conexões.
Tome cuidado com o destino escolhido. Às vezes, em locais de pouco movimento, não é recomendado o uso dessa estratégia, pois pode restringir demais as opções de carona.

6) Leve um bom mapa

Decore todas as ruas e cidades da região onde você está. É comum o motorista parar e dizer que só vai, por exemplo, até o Cafundó do Leste. Se não souber onde fica tal fim de mundo, poderá perder caronas importantes e acabar não saindo do lugar.

7) Nunca fique parado

Se não está conseguindo ir para o lugar desejado, tente uma cidade mais próxima, uma carona curta, ou um outro ponto de carona.
caroneiro
Estou nesse mesmo exato local há 22 anos, 7 meses e 14 dias, seu fedelho mimado
Ficar muito tempo parado desperta olhares de curiosos e malandros, que sempre aparecem depois de certa hora, até mesmo nos lugares mais despovoados.

8 ) Conte com a ajuda dos outros

Na dificuldade, procure um posto de gasolina ou da polícia rodoviária. Converse com os frentistas e policiais sobre tua carona pretendida. A maioria vai querer te ajudar. Quando alguém parar para abastecer, por exemplo, tente uma abordagem direta.
Por mais que seja constrangedor, fale o que pretende, seja simpático e educado. Em lugares turísticos, fique de olho nas placas dos carros que estão estacionados. Perguntes ao guardador quais deles estão lotados ou com pouca gente. Seja cara de pau. Em cada quatro tentativas, uma dá certo.

9) Descole carona com antecedência

Chegando nos povoados e vilarejos, converse com o povo sobre as caronas que pretende fazer amanhã ou nos dias seguintes. Em lugares menores, todo mundo se conhece e é muito comum alguém lhe informar quem costuma ir para tal lugar com freqüência. Não é sorte e sim comunicação.

10) Esteja preparado para tudo

As caronas podem variar desde um confortável carro de passeio, com ar condicionado e companhias agradáveis, até pairar por caçambas sujas de caminhões e sinistros paus-de-arara.
pegando-carona
Pegar carona é um estado de espírito!
Sem humor e gosto pela aventura, dificilmente conseguirá viajar de carona com prazer, curtindo cada situação encontrada como uma nova experiência de vida. Mas cuidado! Depois da primeira trip com sucesso, você verá que pegar carona vicia e causa dependencia.


Extraído de: http://papodehomem.com.br/10-dicas-para-pegar-carona-o-resgate-de-um-estilo-de-vida/#comment-126947

segunda-feira, 1 de março de 2010

Fortaleza: Domingo, 28 de fevereiro

Depois de dois dias tentando carona para sair de Mossoró, cheguei a Fortaleza.
No primeiro dia, fomos eu Thiago e Marco para a saída de Mossoró, sentido Canoa Quebrada.
Depois de umas boas 4h e a testa queimada de sol, voltamos eu e Thiago. Marco seguiu com um taxi até Canoa.
Carona é sorte, e tem as suas regras. Uma delas é, nunca tente carona em tres, ainda mais se forem tres homens.
A ordem de facilidade é:
2 mulheres
1 mulher
1 casal
1 homem
2 homens
depois já vai culminando para níveis absurdos de dificuldade.

No segundo dia, planejei ir cedo para o posto ipiranga, na saída da BR 304 de Mossoró.

Exibir mapa ampliado
Com 2 reais no bolso, nem poderia cogitar pegar ônibus. Sabe-se lá quando eu precisaria dessas escassas moedinhas.
No dia anterior haviamos tentado carona ali na saida do posto, com plaquinha, porém nao foi nada eficiente nossa tentativa.

Eu estava doido pra ir pra Canoa Qubrada, porém sem dinheiro no bolso para taxi. Tentei até o ultimo momento. Começou a escurecer. Já era. Carona de noite é furada. Não é impossível. Mas já estava vencido pelo cansaço também.

Nao havia quebra-molas, e os carros nao iriam parar por nada. Os caminhões já haviam arrancado, e também nao iriam freiar, a menos que fossemos tres loiras bundudas com uma minisaia.


Minha tática era então a aproximação corpo a corpo.

Perguntei a alguns caminhoneiros que estavam almoçando ao lado do caminhão:
- fala amigo, desculpa incomodar aí, mas vocês não estão indo no sentido Fortaleza não?
- gente tá indo sim, mas estamos esperando carregar o caminhão. gente saí só amanha de tarde.

Não, nada de esperar. Já havia aproveitado bastante Mossoró, e além do mais não podia ficar uma noite mais, e sacrificar uma noite a menos ou em Canoa Qubrada ou em Fortaleza.

Perguntei a alguns outros caminhoneiros e carros que paravam na bomba. Mas nada.
Definitivamente sair de Mossoró de carona é um pouco complicado.

Fiquei por 4h tentando. Umas 17h da tarde, já escurecendo, fui ao restaurante do posto, desconsolado.
Foda!
Sem dinheiro, perguntei se o café era cortesia.
"é sim menino"
Tomei um, dois, tres de uma vez.
Sentei na mesa, abri o mapa, analisei a distancia que ainda teria que viajar, praguejando o mundo internamente - estava rabugento nessa hora - e pedi mais um café.
Um senhor se aproximou:
"isso aí é cd pirata é?"
Sim, ele pensou que eu era vendedor de cd pirata, olhando pro meu mochilão e pra minha cara de estou-carregando-essa-mala-ha-20-dias.
- não, não amigo... só estou viajando por aí mesmo.
- ahhhh...
Se ele não virasse as costas tão rápido, iria convidá-lo para tomar um café cortesia comigo. Queria conversar.

Tomei mais um café, e sob alguns olhares curiosos, comecei a escrever uma nova placa: FORT. (nao cabia fortaleza no A4). E saí do restaurante para perto das bombas outra vez. Voltar para uma noite mais em Mossoró seria a aceitação do fracasso. E era noite de luau em Canoa Quebrada.

Levanto a placa uma vez mais para um caminhoneiro que estava de saida do restaurante:
- Fortaleza! Aracati?? Canoa???
- Ahnn... tô indo pra lá.
- FORTALEZA?? Sério???
- Bora fi...

Não acreditei, e sai correndo com a mochila de 20kg todo desengoçado pro caminhão.

O cara é muito doido. Caminhoneiro doidera mesmo.
Mal entrei no caminhão:
- TU TÁ ARMADO??
- não po, que isso.
- ENTÃO SIMBORA!
E partiu dando uns tapas na porta do caminhão.


Demorou até termos confiança um no outro. E muito embora eu tivesse afirmado que não estava armado, só depois de haver contado a minha história, dos lugares que havia passado, das pessoas que havia conhecido o clima melhorou um pouco.
Foi uma das caronas mais agradáveis, autoexplicativas da vida de caminhoneiro e nonsense de toda essa amalucada viagem.

O cara me contou táticas pra não dormir: "Cocaína, desobese e whisky se tiver com grana, conhaque se tiver duro, tiro e queda.".
"Em dia que eu rodo 12h eu me sinto mal, pra eu render, e ficar tranquilo, rodo 18h por dia. Já rodei 32h seguidas pra não perder o prazo da entrega."
De policiais de beira de estrada: "Policial honesto é uma merda! Bom é policial corrupto, que cobra uma propininha pra facilitar pra nóis".
Passamos de discussões acirradas sobre o sistema educacional e sobre putas que fumam crack, e pela dura e perigosa vida de caminhoneiro.
Passei a entender o caminhoneiro nessa viagem. Passar a vida na estrada, estar em casa por 10 ou até 5 dias só no mês. O Brasil é um país de dimensões continentais, a vida sobre rodas se torna necessária para a efetiva integração de cada rincão, do Oiapoque ao Chuí. E oportunistas surgem disso. E além dos acidentes (que inevitavelmente vão ocorrer, questão de probabilidade) assaltos, sequestros e assassinatos, são crimes frequentes na vida do caminhoneiro.
Transportar cargas de R$200.000, R$500.000, R$ 1 milhão ou mais por todo o Brasil, é algo bem arriscado. Mas riscos e estatísticas são irrelevantes e quando se tem que encher o prato da família em casa, faz-se o que deve ser feito, e esperar o abraço e o beijo da mulher e filhos na curta estadia em casa, a espera do próximo frete.

***

Passando na entrada de Aracati, de onde se deve tomar a van até Canoa Qubrada, analisando meus 2 reais no bolso. E que já estava de noite, desisti. Se eu não encontrasse um caixa eletrônico em Aracati, poderia nem conseguir ir para Canoa naquela noite.
Decidi ir até Fortaleza.

Chegando em Fortaleza o cara parou o caminhão, e tentou desenrolar com uma puta, eu havia lhe falado que nao toparia essa empreitada, e que caso a negociação se efetivasse, eu esperaria do lado de fora do caminhão. A puta não fez o preço que ele queria, não tive que esperar do lado de fora e seguimos até o Posto Menino Jesus III. Longe pra burro do centro de Fortaleza.
- moleque, voce tem como fazer alguma ligacao aí?
- nao cara, perdi meu cartao, meu celular ta sem bateria e mesmo se tivesse com, estou sem credito.
- beleza, fica com esse cartao aqui, ta cheiinho, 40 unidades. quando eu tiver por minas, voce me mostra um puteiro massa.

Agradeci a boa vontade. E fiquei na de mostrar o puteiro massa pra ele em Muriaé, tentei explicar que é bem complicado essa associação por lá, mas ele insistiu, e assim ficou acordado.

***

Cheguei no posto, que é uma parada de pernoite de caminhões, e fui recebido pelo segurança com o cacetete em punhos:
"pode sair! pode sair! que tu ta querendo??"
Mais uma vez, expliquei toda a história para ele, e que precisava de um orelhão para tentar localizar um amigo em Fortaleza.

Ele nao acreditou muito. Ainda pensou que estava ali para assaltar os caminhoneiros.
A área é bem perigosa. E é comum assalto e sequestros a caminhoneiros ali.

Tentei muitas vezes localizar o André e nada. O maluco não tem celular!
O Moura estava em São Paulo pro show do Coldplay, e foi quem ia me ajudando a localizar o André em Fortaleza. Me passava uns numeros provaveis, e ligava pro numero do orelhão do posto me informando de um provável paradeiro do André.

Nessa hora, o segurança já começou a acreditar (e ter um pouco de pena).
"mas menino, você não é muito doido, pra sair por aí, sem dinheiro, longe demais da sua casa? eu? eu nao faria isso nunca... tá dooido."
E me contou, que nunca tentou carona. Nunca. Que era uma coisa dele, e me contou que uma vez quando morava no Rio, no Parque Bela Vista, escutou sobre uma construtora que estava empregando no Leblon. Sozinho, com força e sem dinheiro, seguiu a pé em busca do trabalho. Cruzou praticamente todo o Rio, saiu as 5h da manhã, chegou lá as 16h da tarde.
Perguntou sobre o emprego. E era verdade (sim até então era só um boato). Conseguiu o emprego. Porém só começaria no dia seguinte. Olhou para os lados pra ver se conhecia alguem para pedir dinheiro emprestado, e nada. Teve que voltar a pé também. Para trabalhar no dia seguinte as 6h da manhã.
Estou contando essa história, porque no momento me marcou. Escutar alguém que antes me via como um assaltante, e depois teve a confiança para se abrir, e contar passagens da sua vida. E mais uma história de sobrevivência de tanta gente como a gente.

***

Consegui falar com o André:
- Maxu tu tá longe que só a porra! Aí é perigoso pra caralho... Tô sem carro, senao eu ia aí te buscar. Peraí que vou ver com algum amigo, e te ligo.

O segurança me recomendou nao ir pegar onibus nessa hora, já que teria que caminhar um pouco, e ficar numa área mais urbana, mais perigosa do que onde eu estava.
Solução, ou esperar algum amigo do André, ou dormir por ali, esperar amanhecer e seguir no busao. Com meus 2 reais.

Me disse que nao teria problema se eu dormisse por ali, mas teria que sair cedo, já que já tiveram problemas com gente que pernoitaram ali. Ele confiava em mim, mas os caminhoneiros que me vissem ali, provavelmente não. Então me acordaria as 5h da manhã para que eu seguisse rumo ao centro.

O André ligou:
"Maxu, meus amigos tao com medo de ir aí essa hora, dorme numa pousada aí perto, que amanha eu te dou o dinheiro..."
Ah poderia ir para uma pousada, mas nem, preferi ficar por ali, o papo estava bom.
Fui para a sala de TV, abri o saco de dormir, e fiquei por ali vendo Big Brother (a segunda vez que via, a outra vi em Ponte Nova na casa da Denise) até pegar no sono.
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